HISTÓRIA E CINEMA

10 dez 2019

ABRIGO NUCLEAR

 

Primeira ficção científica da história do cinema brasileiro, Abrigo Nuclear, longa metragem lançado pelo baiano Roberto Pires em 1981, permanece, 35 anos depois, como uma obra insuperável no aspecto da inventividade e originalidade do fazer cinematográfico. Desbravador do cinema da Bahia, Pires é o responsável, também, por Redenção, de 1955, primeiro filme realizado no estado. Filmado com a lente Ingluscope, criada pelo próprio cineasta, o longa demonstra o pioneirismo e o perfil inventivo do realizador.

Realizado com poucos recursos, Abrigo Nuclear levou vários anos para ser finalizado por conta dos problemas financeiros enfrentados por seu diretor. Longe de qualquer preciosismo, não é um exagero afirmar que se trata de um filme símbolo do cinema baiano. Não somente pela luta do cineasta para vê-lo concluído, mas, também, pelo aspecto criativo e pelo esmero de sua produção na criação de cenários futuristas, controle espacial de seu cenário e da utilização de figurantes.

Na história, a população da terra, por conta da radiatividade contida na atmosfera, precisa ser mantida em imensos abrigos. Governados com punho de ferro pela autoritária Avo (Conceição Senna), que esconde o fato de que os humanos um dia habitaram a superfície, a comandante não concorda com a ideia de que se faz necessário uma nova fonte de energia, no caso, a solar, em lugar da atômica. Ao se perceber que os depósitos de lixo atômico estão saturados e a ponto de explodir, o rebelde Lat (vivido pelo próprio diretor) decide pôr em prática seu plano junto a população local e com o suporte de Lix, a líder do grupo rebelde, também conhecida como “Professor” (Norma Bengell, nome de peso no elenco), parte em busca de provas de que a população humana já habitou o solo acima deles.

Com um roteiro bem amarrado, Pires, em parceria com diversos familiares que atuam no filme, conseguiu construir uma história eficiente, repleta de boas ambientações e atuações convincentes. No seu texto, uma clara inserção do aspecto socialista, ao utilizar nos seus personagens tratamentos como “companheiro”. Claro reflexo da época, na qual a ascensão política da classe operária começava a surgir e o período militar do Brasil iniciava seu declínio. Em certo momento do longa, ouvimos: “Todos precisam saber o que está acontecendo e tentar anular o domínio cibernético nuclear que envolve a todos”. Pois é, Figueiredo. Sua hora estava chegando.

Em seus figurinos brancos, uma unicidade da população futurista denota justamente a visão exata de Pires quanto ao simbolismo daquela ideia. Tornando todos iguais em aparência, um disfarçado, porém eficiente controle do pensamento se faz presente em uma das sutis mensagens do filme no seu aspecto pós-apocalíptico. No entanto, um claro sinal do período em que a obra foi executada se faz presente nos cabelos grandes e desgrenhados dos homens, muito comum no final dos anos 1970, bem como as camisas de peito aberto que vemos em alguns personagens, algo que destoa um pouco do aspecto clean que a obra propôs, mas, claro, sem prejudicá-la.

Na utilização das areias da praia de Jauá como locação externa, nada fica a dever a, por exemplo, o uso do deserto da Tunísia por George Lucas quatro anos antes, no primeiro Guerra nas Estrelas. E o que dizer do carro futurista que é utilizado como veículo do personagem de Pires em suas saídas na superfície? Do mesmo modo, o uso dos cenários feitos de modo artesanal, mas não menos eficientes, criam uma ambientação perfeitamente adequada a sua proposta.

( Ref.: http://www.cinehorror.com.br/resenhas/abrigo-nuclear?id=374)

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