HISTÓRIA E CINEMA

01 out 2019

Baile Perfumado

Drama histórico. Brasil, década de 1930. Responsável pelo único registro fotográfico do encontro entre o Padre Cícero e o cangaceiro Virgulino Ferreira Lampião, o comerciante libanês Benjamin Abrahão investe todos os seus recursos numa nova empreitada: com o advento do cinema, pretende ele realizar um filme com o cangaceiro e seu bando, obra de imediato predestinada ao sucesso devido à popularidade nacional de seu protagonista.

 Após endividar-se para conseguir o equipamento de filmagem, Abrahão inicia uma peregrinação pelo sertão pernambucano, fazendo contato com os coronéis da região a fim de chegar até João Libório, fazendeiro próximo a Lampião e que possibilitará o encontro de ambos. Disputas entre coronéis, a ação da polícia (representada pelo obstinado tenente Lindalvo rosas) e a ação do governo federal, descontente da repercussão de um filme que retrata favoravelmente um criminoso, serão empecilhos que colocarão em risco a própria vida de Abrahão.

 Baile Perfumado pode tranquilamente ser considerado, junto com Central do Brasil, o melhor filme brasileiro da década de 90. Em termos de narrativa, porém, diferencia-se de seu contemporâneo na maneira vibrante e inovadora com que a câmera dos diretores Lírio Ferreira e Paulo Caldas voltam-se para o cangaço, tema que parecia esgotado e que ressurge com uma fotografia ousada e uma impressionante trilha sonora (o tal mangue-beat do precocemente falecido Chico Science).

Utilizando-se do passado para comentar o presente, os diretores mostram aqui a ação da modernidade, de cujos efeitos nem mitos como Lampião escaparam: endinheirado e vaidoso, o cangaceiro em sua fase final não hesitava em ostentar riqueza, e se permitia ao bando o deleite de bailes regados a bebida e perfume francês, também não se furtava a viajar, disfarçado, com Maria Bonita, até a capital pernambucana só para ir ao cinema.

Razão tanto do apogeu quanto da ruína (o filme sugere que o bando teria sido aniquilado pelos homens de João Libório, e não pelas armas do governo), resultado paradoxal do conflito entre forças conservadoras e progressistas, essa modernidade atropelou também o visionário Benjamin Abrahão, que, da mesma forma que qualquer artista contemporâneo, precisou bater de porta em porta atrás de patrocínio, o que obteve enquanto seus interesses coincidiram com o dos coronéis.

Inteligente, crítico, divertido, o filme realiza ainda um belo diálogo com a história ao revelar as imagens reais filmadas pelo verdadeiro Benjamin Abrahão, o único registro de Virgulino Ferreira da Silva, que tanto desagradou o Estado Novo de Getúlio Vargas. Imagens que, recriadas, por si só já tornariam Baile Perfumado fundamental, compensando cenas dispensáveis envolvendo as negociações de Abrahão.

Destaque ainda para o ator Luis Carlos Vasconcelos, figura que vem se revelando presença-chave na cultura brasileira: além do desempenho riquíssimo como Lampião, pôde ser visto ainda atuando no cinema em O Primeiro Dia, Eu, Tu, Eles e Carandiru, e no teatro, dirigindo o instigante espetáculo Vau da Sarapalha.

Texto retirado do site: http://resumos.netsaber.com.br

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