HISTÓRIA E CINEMA

12 set 2019

CANUDOS: TEMPOS DE PENSAR, TEMPO DE CONTAR

 

Propriedade antiga, senhorial, a fazenda Canudos era uma parte minúscula do imenso latifúndio pertencente à família Garcia d’Ávila, compondo o patrimônio da Casa da Torre. Registra Nonato Marques” que no fim do século XVII, graças ao ímpeto desbravador de três gerações d’Ávilas, a Casa da Torre já se havia assenhorado de imensos territórios que iam muito além do São Francisco e que já se expandiam pelos sertões de Pernambuco, Piauí e Minas Gerais” (Marques, 1984).

Administrar tão extenso território significava a superação constante de obstáculos que, gradativamente, mostravam-se onerosos e insuperáveis. Estrategicamente, então, os grandes latifundiários passam a lotear partes de suas imensas possessões, originárias das antigas sesmarias coloniais.

Em decorrência dessa estratégia, no início do século XIX a Fazenda Canudos encontrava-se arrendada à Sra. Mariana Francisca. Já no final do século, mais precisamente em 1890, “aparece no arrolamento de bens deixados pelo Dr. Fiel José de Carvalho e depois no formal de partilha, como parcela cabida à filha D. Mariana Fiel Dantas de Carvalho, juntamente com a casa-sede, já arruinada, alguns bovinos e animais de criação” (Ferraz, 1991). Os limites da propriedade, conforme documentação existente no Arquivo Público do Estado da Bahia, estavam assim estabelecidos: “ao nascente com a Fazenda Cocorobó; ao norte com Canabrava; ao poente com a Barra e ao sul com o Rosário” (Idem).

Os moradores, gente de má aparência e reputação pouco abonadora, segundo a narrativa euclidiana (Cunha, 1986), recebem sempre amistosamente Antônio Conselheiro que nesse período passa a frequentar a região? Fumava-se, hábito disseminado entre os habitantes do insignificante povoado, cachimbo com longos canudos, supondo-se daí a origem de nome da localidade. Próximo, muito próximo, estava o ano de 1983. A história gestava Belo Monte.

Antônio Vicente Mendes Maciel, Antônio Conselheiro, cearense de Quixeramobim, nascido a 13.03.1830, era conhecedor e conhecido em terras baianas. Homem religioso, de existência modesta e sacrificada, tornou-se na maturidade importante liderança religiosa e popular. Andando pelos sertões, pode observar os penares do seu povo. Acolhe com carinho principalmente as vítimas da politicagem infrene, do fisco voraz e das arbitrariedades policiais (Nogueira, 1978)

O andejar do Peregrino coincide com o período dolorosamente adverso para o povo nordestino. As estiagens, especialmente a grande seca de 1877, abrem em chagas a vida das populações do semi-árido. Há, também, a opressão crônica exercida pelos grandes proprietários, ditando leis, nomeando autoridades e impondo regras. Senhores absolutos, sustentam politicamente a Monarquia e excluem sistematicamente a cidadania. É o coronelismo, a enxada e o voto. Marca-se gente.

Esse povo, sem “eira nem beira”, faz crescer o séquito conselheirista. Em nome de Deus, o bom Jesus reza e moureja. Ao longo da sua caminhada, constrói igrejas, pequenos açudes e barragens. Ergue e repara cemitérios, tornando-se exemplo vivo, referência obrigatória para os despossuídos, herdeiros da fome e do analfabetismo.

O regime monárquico e escravagista, no entanto, revelava-se terminal. O desenvolvimento extraordinário do capitalismo revolve os velhos arcabouços colonialistas. Afirmava-se a primazia do trabalho assalariado e confirmava-se a expansão do capital internacional. O tigre imperialista, sequioso, começava a rugir. Encanecidos, o imperador Pedro II e o regime cedem. Em 13 de maio de 1888 extingue-se oficialmente a escravidão humana no Brasil. Atento, Antônio Conselheiro opina: “Sua alteza a Senhora Dona Isabel libertou os escravos, que não fez mais do que cumprir a ordem do céu; porque era chegado o tempo marcado por Deus para libertar esse povo de semelhante estado...” (Nogueira, 1978). Grave fissura política, de natureza conjuntural, fragiliza a base de sustentação do poder imperial. Cindidas, as elites dominantes enfrentam-se Os cafeicultores paulistas, força emergente da economia, conspiram pelo Poder. Os militares, insatisfeitos, conspiram. Consolida-se a romanização da Igreja Católica. Os latifundiários nordestinos, senhores de engenho produtores de açúcar, debatem-se em agônica decadência. Finalmente, um golpe militar com ponderável inspiração civil, deflagrado a 15.11.1889, derroca a combalida monarquia brasileira. Os anéis enroscam-se em novos dedos. Instaura-se a República Federativa, Oligárquica e Coronelista. A separação entre a Igreja e o Estado, a instituição do casamento civil e a introdução de ensino laico, medidas adotadas pelo regime nascituro, são energicamente contestadas pelo Conselheiro.

Sentencia: “É evidente que a República permanece sobre um princípio falso e dele não se pede consequência legítima: sustentar o contrário seria absurdo, espantoso e singularíssimo; porque ainda que ela trouxesse o bem para o país, por si é má, porque vai de encontro à vontade de Deus, com manifesta ofensa de sua divina lei” (Nogueira, 1978). O governo republicano era, portanto, inaceitável.

O advento do novo regime agita a cena política baiana. Antigas lideranças regionais, nascidas e desenvolvidas na dualidade partidária do Império, trêfegos militantes dos partidos Conservador e Liberal, trasvestem-se rapidamente em aúlicos da República. Disputavam cargos e prestígio político. Vianistas e gonçalvistas terçam armas. É a guerra violenta dos vitupérios conduzida por litigantes experimentados, poderosos e matreiros. Em entrevistas concedidas no mês de agosto de 1897 ao repórter Favila Nunes, do jornal Gazeta de Notícias, Luís Viana, então Governador do Estado, Dr. José Gonçalves, ex-governador e principal opositor do governo estadual, apesar das inúmeras divergências episódicas, num aspecto convergem: urge destruir Canudos!

A cidade crescera. Situada em “vale fértil”, banhada pelo rio Vaza-Barris, Canudos transformara-se em Belo Monte desde 1893, quando Antônio Conselheiro lá instalara-se definitivamente, e dera-lhe novo nome. Transmutou-se em terra da promissão. No imaginário popular, farto e generoso, como contraponto à frugal e mesquinha realidade, no recanto iluminado “os rios eram de leite e os barrancos de cuscuz”. Uma complexa organização sócio-política implantou-se no local. Sob a vigilância do Conselheiro estruturava-se a nova ordem. A prática religiosa cotidiana e o trabalho livre e solidário apascentavam o rebanho de excluídos.

Na afirmação de Marco Antônio Villa (1995), a “cooperação no processo produtivo foi essencial para a reprodução da comunidade”. Corrobora Edmundo Moniz: “Ali havia deveres e obrigações a cumprir diferentes das outras cidades. Todos os moradores de Canudos trabalhavam, homens e mulheres, cuidando da plantação, do gado e da fabricação artesanal dos utensílios mais necessários. Na faixa verde que circundava a cidade cultivavam-se: mandioca, milho, feijão, batata, cereais, fava, melancia, o indispensável para a manutenção do povoado”. Em julho de 1897, um grupo de proeminentes cidadãos (advogados, médicos, jornalistas, comerciantes etc) constituíram o Comitê Patriótico da Bahia, com a finalidade de prestar assistência aos combatentes feridos nos conflitos de Canudos. Presidido pelo Sr. Franz Wagner e secretariado pelo jornalista Lélis Piedade, o Comitê cuidou efetivamente de vencidos e vencedores. O Relatório final, detalhada descrição das atividades desenvolvidas pelos participantes da iniciativa, tornou-se um valioso documento. Tendo mantido enfermarias em Salvador (hospital Santa Isabel, Mosteiro de São Bento, Faculdade de Medicina, quartel de São Joaquim) e no interior (Alagoinhas, Cansanção, Queimadas, Monte Santo), o Comitê Patriótico da Bahia, através de seus voluntários, pode conviver com a dura realidade do pós-guerra. Lê-se, por exemplo, a página147 do Relatório mencionado: “Maria Joaquina de Miranda, branca, com 45 anos de idade, casada e natural de Tucano e prisioneira em Canudos tendo liberdade na cidade de Alagoinhas e sabendo que os filhos menores de nomes: Maria, com 13 anos e Porfirio, com idade de 10 anos, seguiram para a capital do amazonas em companhia de oficiais do batalhão de polícia daquele Estado, vem pedir a V. Ex. a caridade de reclamá-los, pois  suplicante, embora na ausência de seu marido por não saber se está vivo ou morto, está em condições sustenta-los com subsistência, como prova os documentos juntos – A rogo de Maria Joaquina de Miranda-Felippe de Oliveira” (Piedade, 1901). Confirma-se dessa maneira que a separação de famílias e o destino obscuro de dezenas de crianças constitui-se em grave delito oficialmente desconhecido, ou melhor, desconsiderado pelas autoridades competentes.

Outro documento esclarecedor é o relato do médico Américo Barreira, que prestou assistência aos prisioneiros hospitalizados, também em Alagoinhas, a serviço da Inspetoria de Saúde do Estado da Bahia. Declara: “A retirada (de prisioneiros) foi feita sem assistência minha nem de meu distinto colega Dr. Manoel Vergne de Abreu, como se os médicos em comissão nesta cidade fossem figuras secundárias ou completamente nulas. Não fomos ouvidos nem ao menos procurados, o que não podia deixar de causar estranheza”. Doentes sob cuidados médicos arrancados do leito sem a devida autorização competente! Após a degola escabrosa e bárbara, o Estado, responsável pela guarda e proteção dos prisioneiros de guerra, permite o sequestro criminoso dos vencidos!

Ainda sobre o destino dos sobreviventes de Canudos, Júlio Chiavenatto produziu o romance “As meninas de Belo Monte”, obra que aborda o tráfico de jovens prisioneiras canudenses para prostíbulos da Capital e de outras cidades da Bahia. Os poucos sobreviventes do séquito conselheirista, os que lograram manter a vida e a liberdade, receosos, dispersaram-se para escapar da repressão e do opróbio. Retornariam em breve. Sob o evolar das cinzas a cidade renasceria... Na primeira década dos novecentos, desconfiados e cautelosos, os antigos moradores e ex-combatentes começaram a retornar. Dos escombros vão reconstruindo a cidade. Reerguem a antiga igreja de Santo Antônio e reedificam algumas poucas casas. Aos antigos juntam-se novos habitantes. Velhas histórias integram-se no cotidiano da vila, para ingressar na memória. De boca em boca, eternizados no carinho e na lembrança de sua gente, renascem Antônio Conselheiro, Pajeú, João Abade, Venâncio, Macambira, Timoteo, Marciano de Sergipe e muitos outros.

A década de trinta, com a chegada do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca-DNOCS, alteraria profundamente a vida da cidade renascida. Confirma Eldon Canário: “A chegada do DNOCS a Canudos, no caso da década de trinta, causou profunda mudança na Vila. Com a função de combater a seca, o DNOCS tratou antes de cortar o sertão com uma importante estrada, cujo traçado, a partir de Serrinha, distanciava-se cada vez mais da via férrea”. Os anos cinquenta, emoldurados nos sonhos dourados, traria a barragem de Cocorobó, futuro sepulcro da cidade reconstruída. Antiga e reclamada postulação da comunidade, a construção do açude tornou-se promessa governamental durante o Estado Novo (Canário, 1988).

Somente no final dos anos sessenta a barragem se concluiria. Finalmente, domado o Vaza Barris, fecharam-se as comportas. Canudos submergiu plácida, vazia. A boca imensa do lago devorava casas, ruas, imagens e lembranças. Misturava-se sangue e água. Esvaia-se, hemorrágica, nas veredas sombrias do verde profundo da represa, a memória de Canudos. O povo, já deslocado para onde outrora ficava a fazenda Cocorobó, guardou-a enraizada no peito. Melancólico, nos conta novamente Eldon Canário: “Sentia um misto de saudade e revolta. Se pudesse, destruiria a barragem do açude de Cocorobó e chamaria de volta velhos canudenses para uma grande obra de reconstrução da minha sofrida e inesquecível Canudos, antes duas vezes destruída pela insensatez dos homens. Então foi para isso que se fez o açude de Cocorobó?” (idem). Das toscas casas onde se instalaram os trabalhadores da represa originou-se a Nova Canudos. As moradas concentravam-se próximas às oficinas do DNOCS e constituíram-se no primeiro bairro da cidade que brotava. Era a terceira Canudos, ainda que nova; era o renascer teimoso do arraial antepassado nunca esquecido. Finalmente, a Lei Estadual nº 4.404, de 25.02.1985, criava o atual município de Canudos, hoje uma das 415 cidades do Estado da Bahia. Próximas, sob o mesmo lago, duas cidades dormem. Para os que as desejavam silenciosas, elas gritam eloquentes no recordar clarividente do povo daquele lugar.

(Moniz, 1987). Embora fosse inegável a ascendência de Antônio Conselheiro como liderança política e religiosa na comunidade, evidencia-se nos testemunhos historiográficos, escritos e orais, conhecidos e disponíveis, que a organização e edificação da “Meca Sertaneja” constitui-se em tarefa primordialmente coletiva.

No período que se inicia em 1983, estendendo-se até novembro de 1896, quando ocorre o histórico combate de Uauá, Belo Monte cresce desmesuradamente e convulsiona os sertões normalmente plácidos. O fluxo migratório constante para as margens densamente ocupadas do Vaza-Barris tem imediata repercussão na oferta de mão-de-obra da região, provocando a inquietação e a ira dos proprietários assentados na área, desconforto expresso publicamente pelo Barão de Jeremoabo, que publica contundentes artigos na imprensa da Bahia. Em textos “relativamente extensos”, expostos nas edições de 04 e 05 de março de 1897, no Jornal de Notícias, o barão analisa: “Desde 74 até 76 continuou ininterruptamente esse estado de coisas sempre em escala ascendente...Começou então a desorganização do trabalho e os efeitos da ociosidade se fizeram sentir’. Adiante: “Assim foi escasseando o trabalho agrícola e é atualmente com suma dificuldade que uma ou outra propriedade funciona, embora sem a precisa regularidade” (Apud Bastos, 1995).

A opinião de Cícero Dantas, barão de Jeremoabo, reflete o pensamento da classe senhorial. Apertava-se o baraço e afiava-se o cutelo. Preocupava aos graves e seculares senhores, conforme a opinião insuspeita de César Zama, registrada no seu Libelo Republicano que, embora fosse Canudos “vasto recinto de sertanejos ignorantes e rudes não havia uma só casa de mulher pública. Havia ali escola pública e tal ou qual policiamento. Os delitos correcionais Antônio conselheiro os punia lá a seu modo. Os crimes graves ele os entregava às autoridades da comarca... Aquela povoação proporcionava ao Estado pingue fonte de receita do imposto de exportação sobre pelles” (zama, 1989). Havia também o culto cotidiano do sagrado nas prestigiosas orações matutinas e vespertinas. Entretanto, foi também em nome de deus que os canhões dispararam das montanhas...

Tronaram-se graves ao longo do tempo as dissenções entre parcela numerosa do clero baiano e Antônio conselheiro. Durante a fase nômade do séquito conselheirista, os párocos baianos notificavam o arcebispo através de virulentas correspondências, pedindo providências contra Antônio Vicente. Alegavam insanidade mental tipificada como monomania religiosa (houve mesmo a tentativa de internamento do conselheiro num asilo para loucos), incitamento e mobilização do povo, o que colocaria em risco a ordem pública e representava flagrante desacato às autoridades constituídas face à pregação a monarquista do Peregrino. Impunha-se, portanto, a disciplinar e providencial intervenção hierárquica do poder religioso e temporal. Verdade era, também, que desprovido dos estipêndios governamentais e desgastado moralmente, a imensa maioria do clero lutava contra a evasão e dispersão dos fiéis, objetivando manter rentáveis suas paróquias. A extinção do Padroado roubara-lhes o emprego público.

Ainda sobre as tumultuadas relações entre párocos católicos e o pregador cearense, esclarece-nos Abelardo Montenegro que “as populações sertanejas acabaram por traçar o paralelo entre Conselheiro e os vigários, verificando que aquele sobrepujava estes em qualidades, estando mais perto do coração deles. O exemplo do Conselheiro concorrerá para a desmoralização dos párocos pouco virtuosos. Essa superioridade moral e a fraqueza do poder público concorreram para aumentar o prestígio de Conselheiro” (Montenegro, 1954).

O mesmo Abelardo Montenegro, referindo-se à passagem do capuchinho italiano por Belo Monte, anota: “Em palestra com conselheiro, Frei Evangelista dizia-lhe que a igreja condenava os revoltosos e, aceitando todas as formas de governo, ensinava que os poderes constituídos regem os povos em nome de Deus” (idem.) Malograria a investida da Igreja Católica. Atrabiliário e autoritário, o religioso italiano que, segundo Melo Morais”, usava uma linguagem estropiada, e muitas vezes cheia de trocadilhos obscenos”, entra em confronto aberto com os conselheiristas, sendo obrigado a abandonar o arraial às pessoas. Reagiria colérico: “A seita político-religiosa entrincheirada nos Canudos não é só um foco de superstição e fanatismo, é um pequeno shisma na igreja baiana; é, principalmente, um núcleo na aparência desprezível, mas um tanto perigoso e funesto de ousada resistência e hostilidade ao governo constituído no país” (Marciano, 1895). A convergência de interesses dos setores hegemônicos da sociedade, contraditados no descontrole e precedente que Canudos passou emblematicamente a representar, mobilizou o braço armado do Estado: entrava em cena, belicoso e sedento, o jacobinismo florianista. Era inadiável afirmar a República. Orar agora só no front! Quatro expedições militares foram necessárias para destruir Canudos. O assalto final, magistralmente descrito por Euclides da Cunha, revestiu-se de heroísmo e dramaticidade. Em 05 de outubro de 1987, sob um chão juncado de cadáveres insepultos, tombavam os últimos combatentes. Tardiamente, num ”mea culpa” estéril, as elites intelectuais e a consciência nacional se aperceberam do banho de sangue. Lamentavelmente, contudo, a “charqueada” já havia se consumado. Canudos era agora cinzas. Restavam, todavia, os prisioneiros. Velhos, mulheres e crianças. Sobreviveram à degola, não sobreviveriam à varíola, às febres malsãs, à diarreia e à sociedade republicana.

 

Manoel Neto

 

Ano III - Número 46 - setembro./2019

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