HISTÓRIA E CINEMA

13 mai 2019

CRIAÇÃO

 

O filme explica como foi escrita a principal obra de Darwin: A Origem das Espécies. A direção é de Jon Amiel e a produção é de Jeremy Thomas. No papel de Darwin vemos Paul Bettany, e como sua esposa, Emma Wedgewood, Jennifer Connelly.

E eu gostei. Muito. É um filmaço. Os atores são incríveis, a música é incrível. Mas, acima disso tudo, achei o enredo incrível. Gostei, porque o filme me fez, ao mesmo tempo, admirar Darwin (o que já acontecia muito antes de eu ver o filme. Afinal, ele era genial), e ter pena do seu sofrimento. Em outras palavras: Darwin foi humanizado.

É normal olharmos para uma figura histórica, como Darwin, e aclamá-lo herói, revolucionário, genial, à frente de sua época. Tantos louvores, tantas aclamações, acabam distanciando de nós a sensação de que Darwin era também um homem normal. Pai dedicado, esposo preocupado, pensador consciente, religioso decadente. Assim o filme mostra esse intrigante pensador do século XIX.

Acima disso tudo, o filme mostra Darwin como um homem atormentado. Ele vai perdendo a fé, em parte por causa de sua teoria, em parte por causa do próprio sofrimento, em decorrência da morte da filha Annie, de 10 anos. Ele reluta a publicação de seu livro até onde pode, temendo o castigo eterno de sua alma. Sua reação às palavras de Thomas Huxley no filme ilustram isso. Em certo momento, Huxley diz: “Sr. Darwin, o sr. matou Deus.” Darwin arregala os olhos, sem acreditar no que acaba de ouvir. Esse sentimento permeia o filme todo. Depois de muito sofrimento, medo e decepção com a igreja, ele e sua esposa decidem publicar aquele perigoso livro. “E que Deus nos perdoe”, diz Emma a ele.

Quando comecei a estudar Biologia, sendo cristão, fiquei com raiva de Darwin. Achava que ele era mau, inescrupuloso. Como ele se atreveu a questionar a Bíblia? Ele merecia as piadas que faziam dele… Mas esse foi só o meu primeiro ano de faculdade. Mereço um desconto…

Duas linhas para mudar o mundo

Essa minha atitude beligerante foi mudando por causa da percepção  da veracidade de um único fenômeno: a seleção natural. A ideia da seleção natural é absurdamente revolucionária. Simples de tudo, mas pungente. Afinal, podemos definir seleção natural em duas linhas: o animal melhor adaptado às condições ambientais sobrevive, e deixa descendentes, contribuindo para o sucesso e diferenciação de sua espécie. É tão simples que a vemos funcionando no laboratório, em bactérias tratadas com antibióticos em placas-de-petri.

Esse é coração da teoria de Darwin, e foi o que lhe causou mais sofrimento. Para ele, bem como para a sociedade da época em que viveu, as espécies foram criadas imutáveis. Essa ideia ficou conhecida como “fixismo”. Algum religioso entendeu que a Bíblia ensinava isso; fez disso o centro do ensino sobre as Origens do Universo; determinou que era inquestionável; disse que quem ousasse questionar e duvidar disso iria para o inferno. Não é de admirar que poucos ousassem desafiar esse pensamento.

Mas qualquer leitor atento percebe que a Bíblia jamais ensinou o fixismo. A ideia da seleção natural está lá, escondida, mas está lá. No relato do Dilúvio de Noé, que começa em Gênesis 6, Deus destrói o mundo com uma inundação de proporções inimagináveis. Apenas os animais na arca sobreviverão. E Deus espera que essas espécies, que são poucas, repovoem a Terra. Se considerarmos a Bíblia como absolutamente verdadeira, como os religiosos da época a consideravam, como explicar as variações todas? Ora, aquelas poucas espécies da Arca originaram todas as outras, através de especiação por meio da seleção natural. Não é tão  difícil assim!

O mal que a Igreja pode fazer às pessoas

Ao lembrar do filme, o primeiro sentimento que me vem à mente é de decepção. Com a Igreja. A Igreja, como serva de Deus, deveria acolher as pessoas com amor, ouvir seus questionamentos e responder a eles, com ainda mais amor e compreensão. O filme mostra que isso não foi o que Darwin encontrou. (É evidente que há outras variáveis na equação, mas essa é muito importante.) Ele foi criado em uma Igreja que colocava o medo do inferno acima da misericórdia de Deus, e os sistemas doutrinários humanos acima da Bíblia. Jesus jamais autorizou Sua igreja a se declarar inquestionável e dona da verdade. Ela deveria pregar, ensinar o evangelho a todos, sem distinção, e não empurrar sistemas doutrinários ilógicos.

 

Daniel Ruy Pereira

Professor de Biologia e Ciências, licenciado em Ciências Biológicas pelo Centro Universitário Fundação Santo André

 

Ano III - Número 39 - maio./2019

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